Ontem acho que vi michael jackson a mais. Primeiro foi o memorial, que, com as mais ou menos sentidas despedidas e o abuso que foi a filha a falar me fez, ainda assim, lembrar o grande músico que ele era- recordo-me de ir no carro com o meu pai, ele a levar-me à escola, de manhã, e contarmos os dias que o We Are the World estava no top- chegou pelo menos aos 100. Lembro-me disso, como se fosse hoje.
Depois foram as duas reportagens, que vi de passagem por falta de alternativa e acabei por ficar especada a olhar. Como pessoa e jornalista, fiquei muito impressionada. A primeira, que um jornalista inglês fez, com base em várias entrevistas conseguidas a ferro ao homem durante mais de um ano, onde, pelo meio, o ‘imparcial’ jornalista vai tecendo comentários do género ‘até eu comecei a achar que ele está maluco’, ‘temi pela segurança daquelas crianças’, ‘só ele é que não parece preocupado com elas’, etc. Nesse documentário, o MJ fala da violência do pai, das plásticas, da pressão da fama, dos filhos e namoradas e, ninguém duvida, atrapalha-se bastante, mistura ele próprio já os factos com as ilusões, mas é sobretudo retratado como um ser frágil, confuso, à toa, estranho e perigoso na sua ingenuidade.
Na segunda, a versão das mesmas entrevistas gravada pela equipa de mj, e transmitida depois de a primeira ter dado imensa polémica e ter levado a mais um linchamento público, dizia-lhe, afinal o jornalista, que fica ‘emocionado de o ver com os filhos e nunca viu nada assim’, que o ‘neverland é um sítio mágico’, que ‘gostava que as pessoas o entendessem, e se o vissem falar entendiam’. Pelo meio é interrompido pela maquilhadora do Michael, que lhe diz veja como o retratam os media são tão crueis ninguém entende que ele é normal, que é bom; e ele responde ‘mas eu entendo eu vi isso’. Pior, o mj diz-lhe que se sente so, que ser famoso não é fácil, se usa mascaras é maluco, se mostra o filho a fãs que o pedem é maluco, diz que o pai lhe bateu mas era génio, explica bem as coisas e o suposto jornalista diz que tiveram um momento espiritual, que a verdade vai sair, a que o cantor agradece mto mto. Fiquei mesmo chocada, como diria a i (que se vai embora). Este tipo de jornalistas deviam ser presos. Não se percebe se mudou de ideias se simplesmente mentiu para ele se abrir, o que ainda é pior. Foi completamente enganado e induzido em erro. Na entrevista completa e gravada pela equipa de mj, ve-se um homem confuso sim, que mistura a verdade sim, que não tem tomates para falar das plásticas sim, traumatizado com o acne sim, mas sobretudo triste, só e farto de ser mal compreendido. Assim entendo que a vida dele tenha sido uma merda. Assim é melhor ter já acabado. E não acho mesmo que tenha abusado de crianças- quem diz, de passagem que não consegue ver crianças a sofrer, que levava tanta porrada que não dormia e vomitava e tinha medo, e que só de pensar numa criança passar algo semelhante fica doente; e sobretudo quem foi tão abusado e distorcido por pais, jornalistas, colegas, a vida toda, o que prova que houve sempre algo empolado, ficou sempre algo por contar; acho mesmo que não.